{"id":143,"date":"2023-06-29T12:31:33","date_gmt":"2023-06-29T15:31:33","guid":{"rendered":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=143"},"modified":"2023-06-29T12:31:33","modified_gmt":"2023-06-29T15:31:33","slug":"imprensa-criminaliza-mst-enquanto-silencia-sobre-verdadeiros-invasores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=143","title":{"rendered":"Imprensa criminaliza MST enquanto silencia sobre verdadeiros invasores"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Foto: Gustavo Marinho<\/em><\/p>\n<p><em>Por M\u00f4nica Mour\u00e3o<\/em><br \/><em>Do<\/em> <em>Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>Chamar as ocupa\u00e7\u00f5es realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) de \u201cinvas\u00f5es\u201d e, assim, acusar os militantes deste Movimento de violentos \u00e9 a forma mais comum de desqualificar a luta dos sem-terra. Para quem acompanha a cobertura da imprensa, mesmo que de modo n\u00e3o sistem\u00e1tico, \u00e9 at\u00e9 um clich\u00ea, um exemplo f\u00e1cil de como a m\u00eddia se situa na luta de classes. Em nossas pesquisas, o Intervozes confirma: a cobertura sobre a Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito (CPMI) do MST, que aconteceu em 2010, usou 192 termos negativos diferentes para se referir ao MST e suas a\u00e7\u00f5es; a palavra \u201cinvas\u00e3o\u201d e seus derivados foi a mais usada. Tamb\u00e9m em 2010, 42,5% das mat\u00e9rias analisadas citaram o MST como autor de viol\u00eancia. Agora, em 2023, como vimos no primeiro texto de an\u00e1lise da CPI, publicado no Brasil de Fato na semana passada, 100% da cobertura dos dias 17 e 18 de abril usaram termos pejorativos para se referir ao Movimento. Enquanto isso: onde est\u00e3o as mat\u00e9rias sobre os verdadeiros invasores de terra?<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 14 de junho, o projeto \u201cDe olho nos ruralistas \u2013 Observat\u00f3rio do agroneg\u00f3cio no Brasil\u201d lan\u00e7ou a segunda parte do relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2023\/06\/14\/politicos-e-seus-familiares-possuem-96-mil-hectares-sobrepostos-a-terras-indigenas\/\">\u201cOs Invasores: quem s\u00e3o os empres\u00e1rios brasileiros e estrangeiros com mais sobreposi\u00e7\u00f5es em terras ind\u00edgenas\u201d<\/a>. O dossi\u00ea revela quem s\u00e3o as pessoas f\u00edsicas e as empresas cujas terras se sobrep\u00f5em aos territ\u00f3rios delimitados pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai). S\u00e3o 1.692 casos de completo desrespeito \u00e0 lei e aos povos origin\u00e1rios do Brasil. Quarenta e dois s\u00e3o pol\u00edticos ou seus familiares e muitos s\u00e3o doadores de verbas para campanhas eleitorais. Eles doaram para 18 integrantes da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) e tamb\u00e9m investiram na reelei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro (PL). Foram 41 fazendeiros com sobreposi\u00e7\u00e3o com terras ind\u00edgenas que transferiram 1,2 milh\u00e3o de reais para a campanha do ex-presidente derrotado. As informa\u00e7\u00f5es foram obtidas a partir do cruzamento das bases de dados fundi\u00e1rios do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) e da Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai), com informa\u00e7\u00f5es do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).<\/p>\n<p><a><\/a> Mesmo quando trata de quest\u00f5es socioambientais relacionadas \u00e0 terra (como em reportagem sobre garimpo e reserva ind\u00edgena no dia 14 de junho), o Jornal Nacional n\u00e3o mencionou o dossi\u00ea \u201cOs invasores\u201d. O mesmo aconteceu na edi\u00e7\u00e3o do JN de 19 de abril, data do lan\u00e7amento da primeira parte do relat\u00f3rio. Apesar de vir perdendo audi\u00eancia nos \u00faltimos anos (em 2004, tinha uma m\u00e9dia de 39,8 pontos no Ibope contra 23,5 hoje), o programa ainda \u00e9 o telejornal da maior refer\u00eancia no pa\u00eds. Seus telespectadores, no entanto, n\u00e3o chegaram a conhecer as informa\u00e7\u00f5es sobre os verdadeiros invasores de terra do Brasil, assim como assinantes do jornal O Estado de S. Paulo, que tamb\u00e9m silenciou sobre o tema. O Globo, no dia 21 de maio, em mat\u00e9ria intitulada \u201cRuralistas acusados de cometer delitos ambientais doaram a deputados da CPI do MST\u201d, escrita por Jan Niklas, divulgou levantamento feito pelo pr\u00f3prio jornal, que concluiu que \u201csete membros da comiss\u00e3o que vai investigar o MST receberam contribui\u00e7\u00f5es para a campanha de acusados de delitos ambientais e agr\u00e1rios, que v\u00e3o de desmatamento ilegal a contrabando de ouro\u201d. Nenhuma men\u00e7\u00e3o foi feita ao dossi\u00ea \u201cOs invasores\u201d. J\u00e1 a Folha de S. Paulo deu espa\u00e7o para a divulga\u00e7\u00e3o da primeira parte do relat\u00f3rio, com destaque para artigo escrito por um de seus pesquisadores, Bruno Stankevicius Bassi.<\/p>\n<p>Importante tamb\u00e9m destacar as mat\u00e9rias publicadas pela Ag\u00eancia Brasil, tanto por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento da primeira parte do relat\u00f3rio, no dia 27 de abril, quanto sobre a segunda parte, no dia 14 de junho. Em nenhum dos dois casos, a Ag\u00eancia Brasil mencionou a CPI do MST, deixando de lado a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre contexto em que ocorre a investiga\u00e7\u00e3o e as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em jogo. A comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que vinha sofrendo intensos ataques desde o golpe contra Dilma Rousseff, ainda n\u00e3o foi fortalecida pelo atual governo Lula. Desde a participa\u00e7\u00e3o de Ros\u00e2ngela Lula da Silva (Janja) na TV Brasil at\u00e9 a primeira <em>live <\/em>do presidente, feita em formato de entrevista para um jornalista desta TV, Marco Uch\u00f4a, percebe-se que o governismo ainda n\u00e3o tirou suas garras da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC). O principal espa\u00e7o de participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil na EBC, o Conselho Curador extinto por Michel Temer, ainda n\u00e3o foi retomado.<\/p>\n<p>A<em> live<\/em> de Lula foi um dos principais assuntos que a imprensa repercutiu em rela\u00e7\u00e3o ao MST nos dias 13 e 14 de junho. O presidente afirmou que vai realizar a reforma agr\u00e1ria e que n\u00e3o precisa haver \u201cbarulho\u201d nem \u201cguerra\u201d, referindo-se \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es de terra realizadas pelo Movimento. Todas as vers\u00f5es online dos impressos que analisamos (Estad\u00e3o, Folha e O Globo) publicaram mat\u00e9rias com desdobramentos desta fala. A associa\u00e7\u00e3o dos governos petistas ao MST \u00e9 tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia antiga de desqualifica\u00e7\u00e3o do Movimento e de cr\u00edtica a estes governos: em 2010, o fato de Dilma ter aceitado um bon\u00e9 do MST de presente, embora n\u00e3o o tenha usado, rendeu pauta contr\u00e1ria \u00e0 ent\u00e3o candidata \u00e0 primeira elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>S\u00e3o tamb\u00e9m os impressos que t\u00eam acompanhado o dia a dia da CPI, cujas reuni\u00f5es foram retomadas no dia 13 de junho depois de uma semana suspensas. Nesse retorno, bate-bocas entre parlamentares, expuls\u00e3o de uma militante de esquerda do plen\u00e1rio, tentativa de coagir deputadas progressistas foram alguns dos assuntos abordados. Epis\u00f3dios como esses geram recortes de falas que repercutem nas redes, estrat\u00e9gia bem utilizada pelos deputados bolsonaristas para refor\u00e7ar sua base de apoiadores. As performances deles na Comiss\u00e3o s\u00e3o propositadamente midi\u00e1ticas. Na semana do dia 13, por\u00e9m, tamb\u00e9m conseguiu destaque a fala do professor Jos\u00e9 Geraldo de Souza (UnB), em resposta \u00e0 bolsonarista Caroline de Toni (PL). De decis\u00f5es concretas, houve a aprova\u00e7\u00e3o de requerimento para obter informa\u00e7\u00f5es sobre todas as CPIs e CPMIs anteriores relacionadas ao MST e \u00e0 quest\u00e3o fundi\u00e1ria, uma tentativa de culpabilizar o Movimento que, diferente dos fazendeiros invasores, atua dentro da lei.<\/p>\n<p><strong>Que especialistas t\u00eam valor para a \u201cgrande imprensa\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisa realizada pelo \u201cDe olhos nos ruralistas\u201d foi feita por uma equipe composta por jornalistas, ge\u00f3grafos, historiadores e um especialista jur\u00eddico, que realizou cruzamentos de dados disponibilizados pelo Incra com os dados de cobertura e uso do solo da plataforma MapBiomas \u2013 Cole\u00e7\u00e3o 7 (al\u00e9m de informa\u00e7\u00f5es da Funai e do TSE, como j\u00e1 mencionamos). No jornalismo, especialistas s\u00e3o uma fonte considerada bastante leg\u00edtima: com amplo conhecimento dos temas que estudam, teria uma abordagem cient\u00edfica e ideologicamente independente.<\/p>\n<p>Sabemos, por\u00e9m, que a isen\u00e7\u00e3o e a neutralidade s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es narrativas usadas justamente para criar uma impress\u00e3o de \u201cverdade\u201d. O papel dos especialistas ouvidos pela imprensa est\u00e1 longe de ser desinteressado, inclusive na escolha feita por ela de quem merece ser ouvido e de quem \u00e9 invisibilizado. Na pesquisa sobre a cobertura da reforma da previd\u00eancia federal realizada tamb\u00e9m para a cole\u00e7\u00e3o Vozes Silenciadas, o Intervozes observou que, entre os especialistas ouvidos pelos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, uma m\u00e9dia de 64% foram favor\u00e1veis \u00e0 proposta de reforma da previd\u00eancia do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de impressionar, assim, a pouca visibilidade dada ao dossi\u00ea realizado pelo \u201cDe olhos nos ruralistas\u201d. Pesquisadores que se recusam a ser indiferentes \u00e0s implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de seus estudos dificilmente ser\u00e3o considerados fontes leg\u00edtimas por uma imprensa que se posiciona ao lado dos verdadeiros invasores de terra do pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>*Jornalista, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e integrante do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2023\/06\/29\/imprensa-criminaliza-mst-enquanto-silencia-sobre-verdadeiros-invasores\/\">Imprensa criminaliza MST enquanto silencia sobre verdadeiros invasores<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u200b\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Gustavo Marinho Por M\u00f4nica Mour\u00e3oDo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social Chamar as ocupa\u00e7\u00f5es realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) de \u201cinvas\u00f5es\u201d e, assim, acusar os militantes deste Movimento de violentos \u00e9 a forma mais comum de desqualificar a luta dos sem-terra. 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