{"id":144,"date":"2023-06-22T20:40:54","date_gmt":"2023-06-22T23:40:54","guid":{"rendered":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=144"},"modified":"2023-06-22T20:40:54","modified_gmt":"2023-06-22T23:40:54","slug":"vozes-silenciadas-quem-quer-calar-a-luta-dos-sem-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=144","title":{"rendered":"Vozes silenciadas: quem quer calar a luta dos Sem Terra?"},"content":{"rendered":"<p><em>Todas as reportagens analisadas usaram termos que criminalizam a luta pela terra, como \u201cinvasores\u201d, \u201cbarb\u00e1rie\u201d e \u201catos criminosos\u201d. Foto: Daniel Violal\/MST<\/em><\/p>\n<p><em>Por Eduardo Amorim<br \/>Do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>Desde o \u00faltimo 17 de maio, a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o da luta pela terra no Brasil ganhou mais um cap\u00edtulo. Neste dia, foi instalada, na C\u00e2mara dos Deputados, uma CPI sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Com tudo que representa o MST e a composi\u00e7\u00e3o extremamente conservadora do Congresso Nacional, o Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social decidiu monitorar a cobertura da imprensa sobre o tema.<\/p>\n<p>Nesta nova edi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie Vozes Silenciadas, retomamos o assunto da nossa primeira publica\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie, lan\u00e7ada em 2011 acerca da ent\u00e3o Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito (CPMI) sobre o MST. Desta vez, acompanhamos a cobertura simultaneamente com o desenrolar dos acontecimentos. Em parceria com o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, a partir de hoje, vamos publicar artigos semanais para compartilhar este monitoramento.<\/p>\n<p>Nossa an\u00e1lise inclui o acompanhamento da vers\u00e3o online dos impressos\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>,<em>\u00a0Folha de S. Paulo\u00a0<\/em>e<em>\u00a0O Globo<\/em>; do\u00a0<em>Jornal Nacional<\/em>; dos portais<em>\u00a0R7<\/em>, do\u00a0<em>Grupo Record<\/em>, e\u00a0<em>Agromais<\/em>, do\u00a0<em>Grupo Bandeirantes<\/em>; e da\u00a0<em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>, ve\u00edculo da (t\u00e3o massacrada no per\u00edodo recente) comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Na primeira etapa desta pesquisa que se inicia agora, ainda antes do in\u00edcio da CPI de 2023, vimos nos dias 17 e 18 de abril que 100% das mat\u00e9rias utilizam termos que criminalizam o MST: \u201cinvasores\u201d, \u201cbarb\u00e1rie\u201d, \u201catos criminosos\u201d, \u201cinvadiu propriedades\u201d, \u201cinvas\u00e3o de terras\u201d, \u201ccrime\u201d, \u201cMST invade fazendas\u201d, \u201ca invas\u00e3o traz preju\u00edzos\u201d, \u201ca invas\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 prejudicando\u201d, \u201cinvas\u00f5es em abril\u201d. As mat\u00e9rias causam as seguintes impress\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao Movimento: 86,4% negativa; 9,1% equilibrada; 0% positiva e, em 4,5%, n\u00e3o houve posicionamentos mais expl\u00edcitos que nos permitissem identificar.\u00a0<\/p>\n<p>Nas mat\u00e9rias analisadas, 66% das fontes ouvidas s\u00e3o contr\u00e1rias ao movimento, enquanto 34% fazem um contraponto. Em 24% das mat\u00e9rias, apenas ataques ao MST foram publicados. Em mais da metade da cobertura (52%), \u00e9 produzido um discurso em prol da propriedade privada. Enquanto isso, apenas 4,5% contextualizam a reforma agr\u00e1ria; somente 29% discutem temas como grilagem de terras, agrot\u00f3xicos e crimes ambientais e apenas 18% das mat\u00e9rias abordam a agricultura familiar e cuidados com o meio ambiente.\u00a0<\/p>\n<p>A escolha dos dias desta primeira etapa da an\u00e1lise buscou incluir a cobertura sobre a jornada de lutas intitulada pelo MST de \u201cAbril Vermelho\u201d: uma forma de dar visibilidade \u00e0 necessidade da reforma agr\u00e1ria e lembrar o massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, ocorrido no dia 17 de abril de 1996, no sul do Par\u00e1, quando 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados.<\/p>\n<p>Temos alguns aprendizados que trazemos do Vozes Silenciadas de 2011 e de nossas conversas com o MST, como o fato de percebermos que antes do per\u00edodo de funcionamento da Comiss\u00e3o j\u00e1 se formava uma narrativa importante. Naquele per\u00edodo, a criminaliza\u00e7\u00e3o do MST se deu principalmente na prepara\u00e7\u00e3o para a Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito (CPMI). Depois de instalada, ela n\u00e3o foi o foco da cobertura, tendo prevalecido o tema das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2010 (disputada, no segundo turno, por Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Serra). O Abril Vermelho foi o tema relacionado ao MST que mais ganhou destaque (ainda assim, apenas 42 mat\u00e9rias de um total de 301; 24 delas citavam atos violentos dos quais o MST era colocado como autor, seja de forma direta ou atrav\u00e9s de varia\u00e7\u00f5es da palavra \u201cinvas\u00e3o\u2019. Ou seja, o fato de os sem-terra terem sido assassinados em 1996 n\u00e3o era mencionado na maioria dos casos).<\/p>\n<p>Portanto, em 2023, quisemos tamb\u00e9m analisar como foi a repercuss\u00e3o do Abril Vermelho, n\u00e3o s\u00f3 pela sua relev\u00e2ncia para o Movimento, mas tamb\u00e9m por ser o per\u00edodo em que estavam ainda em gesta\u00e7\u00e3o as propostas da bancada ruralista para investigar o MST.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Falta diversidade no campo e na m\u00eddia<\/h2>\n<p>Voltar a estudar uma CPI do MST traz uma reflex\u00e3o importante sobre o per\u00edodo que vivemos. Afinal, ap\u00f3s a derrota de Jair Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, deixando para tr\u00e1s um per\u00edodo de pouca transpar\u00eancia e grande investimento em estrat\u00e9gias de desinforma\u00e7\u00e3o por sujeitos pol\u00edticos de relev\u00e2ncia nacional, surgiu uma esperan\u00e7a de que o Brasil poderia exercer um papel de lideran\u00e7a internacional no enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e na defesa de biomas como o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e do dilema da propriedade, \u00e9 importante destacar que os sem-terra assumiram a bandeira da agroecologia e passaram a ser refer\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de produtos org\u00e2nicos e saud\u00e1veis, atrav\u00e9s de feiras e espa\u00e7os alternativos como os Armaz\u00e9ns do Campo. Seria uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia da pauta ambiental no mundo a cria\u00e7\u00e3o de CPIs como a do MST e mais recentemente uma voltada para fiscalizar ONGs que atuam na Amaz\u00f4nia?<\/p>\n<p>A disputa ideol\u00f3gica pela reforma agr\u00e1ria ganha tamb\u00e9m a companhia de temas como a prote\u00e7\u00e3o dos biomas e dos povos origin\u00e1rios j\u00e1 t\u00e3o associados aos sem-terra. No outro lado, est\u00e3o pol\u00edticos e empres\u00e1rios que defendem a propriedade privada, organizados em grupos poderosos como a Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA). Mesmo que as diversas CPIs com tem\u00e1ticas ambientais n\u00e3o sejam uma estrat\u00e9gia de gerar pautas negativas sobre o tema, \u00e9 evidente que o caminho ser\u00e1 longo e tortuoso para o Brasil se tornar refer\u00eancia mundial no debate das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de estrat\u00e9gias sustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e regenera\u00e7\u00e3o dos solos desertificados.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 importante pensarmos em um termo que vem sendo utilizado no cotidiano pela m\u00eddia. O que \u00e9 \u201cagro\u201d? Originalmente, existiam milhares de culturas agr\u00edcolas. Conforme descrito pelo engenheiro agr\u00f4nomo e analista ambiental Walter Steenbock, no livro\u00a0<em>A Arte de Guardar o Sol<\/em>, estas culturas se associavam em diferentes biomas, mas representavam s\u00edmbolos dos povos t\u00e3o ricos como a gastronomia, a m\u00fasica ou o modo de vida de uma regi\u00e3o. A partir da d\u00e9cada de 1950, a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde passa a propagar uma tecnologia que industrializa o modo de fazer produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e aproveita os restos de ind\u00fastrias como a da guerra e a da minera\u00e7\u00e3o: \u00e9 a chamada agricultura industrial com agrot\u00f3xicos, fertilizantes e outros produtos qu\u00edmicos, financiada por empresas que apoiaram diversas ditaduras na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O crescimento na regi\u00e3o do movimento agroecol\u00f3gico \u00e9 impulsionado no Brasil pelo MST, que j\u00e1 tinha pr\u00e1ticas e din\u00e2micas ambientais e assume no seu VI Congresso em 2014 que a \u00fanica possibilidade para a agricultura brasileira que responda aos anseios e necessidades do povo passa n\u00e3o somente pela reforma agr\u00e1ria, mas tamb\u00e9m pela soberania alimentar e pela agroecologia. Portanto, s\u00e3o quase dez anos desde que o MST assumiu como bandeira a luta por agriculturas diversas, que incluem o feminismo e o debate de g\u00eanero e se contrap\u00f5em \u00e0s monoculturas do \u201cagro\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, o termo \u201cagro\u201d\u00a0n\u00e3o \u00e9 tudo e parece simbolizar um reducionismo que tenta dificultar a compreens\u00e3o das disputas ideol\u00f3gicas do presente. As agriculturas das centenas de povos ind\u00edgenas brasileiros, das comunidades que receberam influ\u00eancia das diversas etnias que vieram para o Brasil da \u00c1frica, formam um conjunto riqu\u00edssimo e \u00fanico de agriculturas (silenciadas ou n\u00e3o). O termo \u201cagro\u201d\u00a0n\u00e3o somente vem sendo utilizado como forma de afirmar a uniformiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas atrav\u00e9s dos produtos qu\u00edmicos, mas tamb\u00e9m de silenciar as din\u00e2micas riqu\u00edssimas que hoje s\u00e3o vistas como fundamentais para o enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como a dos sistemas agroflorestais ind\u00edgenas em biomas brasileiros como o Cerrado, a Caatinga e a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O \u201cagro\u201d, portanto, longe de ser pop, est\u00e1 associado a poderes pol\u00edticos, econ\u00f4micos e culturais. Parte dos donos do agroneg\u00f3cio, por exemplo, s\u00e3o tamb\u00e9m donos da m\u00eddia, como apontamos na pesquisa MOM Brazil e iremos abordar em nossas pr\u00f3ximas an\u00e1lises. Dessa forma, a aus\u00eancia de diversidade na propriedade no campo e o silenciamento das agriculturas e conhecimentos tradicionais e ancestrais tamb\u00e9m est\u00e3o relacionados \u00e0 inexist\u00eancia de pluralidade de vis\u00f5es de mundo na m\u00eddia. A falta de espa\u00e7o \u2013 ou silenciamento \u2013 das bandeiras de luta dos movimentos sociais, muitas descontextualizadas pela imprensa, \u00e9 simb\u00f3lica da viola\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e do direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o de parcela significativa da sociedade brasileira.\u00a0<\/p>\n<p><em>* Eduardo Amorim \u00e9\u00a0jornalista, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela UFPE e associado ao Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p><em>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o do autor n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do jornal\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o: Thalita Pires<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2023\/06\/22\/vozes-silenciadas-quem-quer-calar-a-luta-dos-sem-terra\/\">Vozes silenciadas: quem quer calar a luta dos Sem Terra?<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u200b\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as reportagens analisadas usaram termos que criminalizam a luta pela terra, como \u201cinvasores\u201d, \u201cbarb\u00e1rie\u201d e \u201catos criminosos\u201d. Foto: Daniel Violal\/MST Por Eduardo AmorimDo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social Desde o \u00faltimo 17 de maio, a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o da luta pela terra no Brasil ganhou mais um cap\u00edtulo. 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