{"id":146,"date":"2023-07-08T13:14:16","date_gmt":"2023-07-08T16:14:16","guid":{"rendered":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=146"},"modified":"2023-07-08T13:14:16","modified_gmt":"2023-07-08T16:14:16","slug":"imprensa-produz-conteudo-para-construir-imagem-negativa-do-mst","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=146","title":{"rendered":"Imprensa produz conte\u00fado para construir imagem negativa do MST"},"content":{"rendered":"<p><em>A s\u00e9rie Vozes Silenciadas analisa a cobertura de imprensa da CPI do MST. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>Por Alex Pegna Hercog<br \/>Do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>Tal como numa pintura, o texto jornal\u00edstico \u00e9 carregado de intencionalidade. Cada cor usada e cada tra\u00e7o constroem uma narrativa. O resultado da tela, portanto, traz a imagem daquilo que quem a criou quer exibir, mas tamb\u00e9m pode revelar suas refer\u00eancias, cultura e interesses. No jornalismo, n\u00e3o \u00e9 muito diferente. Cada texto se vale de t\u00e9cnicas e escolhas que, a cada rabisco, deixam escapar sua inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhar com aten\u00e7\u00e3o para a escolha de cores na aquarela de cada publica\u00e7\u00e3o da imprensa \u00e9 um dos desafios da s\u00e9rie Vozes Silenciadas sobre a \u201cCPI do MST\u201d, realizada pelo Intervozes com o objetivo de acompanhar a cobertura midi\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no per\u00edodo relacionado aos trabalhos da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI), instalada na C\u00e2mara em 17 de maio.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos dados resultantes desta pesquisa, \u00e9 fundamental neste tipo de trabalho fazer uma leitura cr\u00edtica da m\u00eddia, esmiu\u00e7ar o texto, desvendar sua intencionalidade. A pesquisa tem acompanhado as publica\u00e7\u00f5es de seis m\u00eddias privadas (<em>O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal Nacional, R7 e Agromais<\/em>) e uma p\u00fablica (<em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>).<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A escolha das palavras<\/h2>\n<p>A primeira decis\u00e3o pol\u00edtica de um\/a jornalista e do ve\u00edculo para o qual trabalha tem que tomar quando come\u00e7a a produzir conte\u00fado sobre o MST \u00e9: usar o termo invas\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o? De acordo com os primeiros resultados da pesquisa, analisando a cobertura dos dias 17 e 18 de abril, o termo \u201cinvas\u00e3o\u201d foi usado em 100% das mat\u00e9rias. Em 86,4% delas, a narrativa causava uma impress\u00e3o negativa em rela\u00e7\u00e3o ao MST.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo o movimento, \u201cos sem-terra n\u00e3o invadem propriedades, mas ocupam terras sem fun\u00e7\u00e3o social\u201d. Em nota, o MST diferencia os termos e apresenta sua justificativa. Portanto, quando um ve\u00edculo utiliza o termo \u201cinvas\u00e3o\u201d, ele simplesmente ignora o argumento do MST. Ou seja, n\u00e3o importa que o termo n\u00e3o seja consenso na sociedade, nem aquilo que os sem-terra reivindicam.<\/p>\n<p>O que poderia fazer, ent\u00e3o, um\/a jornalista ao escrever sobre o MST, na ingl\u00f3ria miss\u00e3o de simular uma imparcialidade, diante de dois termos t\u00e3o carregados de simbolismo ideol\u00f3gico e fundamento jur\u00eddico? Tentar a sorte ou perguntar pro chefe? Seja qual for o resultado do \u201cunidunit\u00ea\u201d, a palavra vencedora automaticamente posicionaria a mat\u00e9ria em determinado campo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Perguntar pro chefe \u00e9 perda de tempo, pedra cantada. Mais do que uma decis\u00e3o individual, trata-se da reprodu\u00e7\u00e3o de interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos das empresas jornal\u00edsticas, em geral, defensoras da propriedade privada e do agroneg\u00f3cio.\u00a0<\/p>\n<p>Quem sabe a solu\u00e7\u00e3o seria, ent\u00e3o, problematizar os dois termos? Pois quando a imprensa faz o contr\u00e1rio, d\u00e1 a disputa como dada, ignora a reivindica\u00e7\u00e3o de quem diz \u201cespera a\u00ed, refa\u00e7a sua pergunta, porque nem de invas\u00e3o se trata\u201d, finge que n\u00e3o h\u00e1 uma disputa em aberto e elege a palavra \u201cinvas\u00e3o\u201d para se referir ao MST, significa que ela j\u00e1 escolheu um lado, que o texto jornal\u00edstico j\u00e1 est\u00e1 enviesado por uma escolha pol\u00edtica.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A escolha das fontes<\/h2>\n<p>A decis\u00e3o de ouvir determinadas fontes, em detrimento de outras, \u00e9 tamb\u00e9m\u00a0 op\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo e que revela suas intencionalidades. Al\u00e9m disso, a quantidade de fontes citadas em uma mat\u00e9ria e a sua disposi\u00e7\u00e3o ao longo do texto tamb\u00e9m v\u00e3o construindo certo posicionamento na narrativa.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a cobertura da CPI chama a aten\u00e7\u00e3o pelo not\u00f3rio desequil\u00edbrio entre fontes, com ampla publica\u00e7\u00e3o de ataques ao MST. Em tr\u00eas exemplos de mat\u00e9rias do\u00a0<em>Estad\u00e3o<\/em>\u00a0publicadas nos dias 17 de abril (\u201cMST invade \u00e1rea de pesquisa da Embrapa em Pernambuco, sede do Incra e fazendas em diversos Estados\u201d), 23 de maio (\u201cOs planos de Ricardo Salles para investigar o MST na CPI\u201d) e 20 de junho (\u201cCPI do MST aprova convoca\u00e7\u00e3o de St\u00e9dile e Jos\u00e9 Rainha, l\u00edderes de movimentos de sem-terra\u201d), apenas pessoas contr\u00e1rias ao MST foram ouvidas.\u00a0<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 ouvir fontes com diferentes posicionamentos n\u00e3o \u00e9 suficiente para trazer equil\u00edbrio \u00e0 mat\u00e9ria. Para uma leitura cr\u00edtica, \u00e9 importante observar o espa\u00e7o que cada uma delas tem no texto. Outro exemplo vem do\u00a0<em>Jornal da Record<\/em>, que no dia 31 de maio noticiou a participa\u00e7\u00e3o do governador de Goi\u00e1s Ronaldo Caiado (Uni\u00e3o Brasil) na CPI. A reportagem durou 2 minutos e 38 segundos, dos quais cerca de 1 minuto serviu de palco para que Caiado acusasse o MST de envolvimento com o tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Ao final da mat\u00e9ria, o apresentador citou um trecho de nota enviada pelo movimento, com dura\u00e7\u00e3o de 5 segundos. Ou seja, apesar de ouvir o MST, a flagrante despropor\u00e7\u00e3o de tempo causa um desequil\u00edbrio e revela a inten\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo de visibilizar ataques.<\/p>\n<p>Outra an\u00e1lise poss\u00edvel est\u00e1 relacionada ao que se apura a partir das falas consultadas. Um exemplo foi a cobertura da manifesta\u00e7\u00e3o do MST em uma \u00e1rea reivindicada pela Suzano Celulose, no dia 17 de abril. O epis\u00f3dio foi amplamente noticiado, com a m\u00eddia privada promovendo a narrativa de rep\u00fadio ao MST.<\/p>\n<p>Algumas m\u00eddias at\u00e9 chegaram a ouvir o movimento, a exemplo da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>Jornal Nacional<\/em>, e publicaram a vers\u00e3o de que a \u00e1rea teria sido ocupada por pertencer ao patrim\u00f4nio p\u00fablico, que havia sido grilada pela Suzano.<\/p>\n<p>Essa justificativa faz toda a diferen\u00e7a. Se ver\u00eddica, desmontaria completamente a narrativa da pr\u00f3pria m\u00eddia em defesa da propriedade privada e contra \u201cinvas\u00f5es\u201d, afinal, a empresa \u00e9 quem teria invadido a \u00e1rea. O que recomendaria, portanto, o manual b\u00e1sico do jornalismo? Apurar o que foi dito pela fonte.<\/p>\n<p>Ou seja, por princ\u00edpio jornal\u00edstico, os ve\u00edculos deveriam ir atr\u00e1s dessa informa\u00e7\u00e3o e buscar documentos e fatos que comprovassem ou refutassem as den\u00fancias feitas pelo MST. No entanto, as m\u00eddias preferiram reproduzir uma nota da Suzano em que afirma estar dentro da lei. Assim, o posicionamento da empresa foi suficiente para os ve\u00edculos ignorarem as justificativas do movimento e tratarem o MST como o verdadeiro invasor e criminoso.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vozes Silenciadas<\/h2>\n<p>Uma leitura cr\u00edtica das publica\u00e7\u00f5es analisadas pelo Vozes Silenciadas j\u00e1 aponta o uso de t\u00e9cnicas jornal\u00edsticas para a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa contr\u00e1ria ao MST. Trata-se, por\u00e9m, de uma an\u00e1lise preliminar, uma vez que a pesquisa est\u00e1 em andamento e que os ve\u00edculos tamb\u00e9m possuem diferen\u00e7as entre si. Mas at\u00e9 o momento j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber uma unanimidade da m\u00eddia comercial em ignorar a tese de ocupa\u00e7\u00e3o do MST e emplacar termos que associem o movimento a crimes e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 uma tend\u00eancia na promo\u00e7\u00e3o de fontes ligadas ao agroneg\u00f3cio, em especial membros da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA), em detrimento de fontes vinculadas ao MST. S\u00e3o citadas com frequ\u00eancia falas do relator e do presidente da CPI, respectivamente, Ricardo Salles (PL) e Coronel Zucco (Republicanos), al\u00e9m de membros da FPA, em especial Pedro Lupion (PP) e Evair de Melo (PP). Tamb\u00e9m se nota o desequil\u00edbrio de fontes e at\u00e9 mesmo o uso da desinforma\u00e7\u00e3o por alguns ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Nesse contexto, s\u00e3o invisibilizados pela m\u00eddia diversos temas que orbitam a CPI e a pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o do MST. S\u00e3o raras as mat\u00e9rias que apresentam as reivindica\u00e7\u00f5es do Movimento e h\u00e1 uma aus\u00eancia de pautas relacionadas a crimes ambientais, reforma agr\u00e1ria e agricultura familiar.<\/p>\n<p>A CPI poderia ser uma oportunidade para a m\u00eddia nacional debater temas essenciais ao pa\u00eds, como as desigualdades no campo e os conflitos agr\u00e1rios. No entanto, essas pautas parecem n\u00e3o ter despertado a curiosidade dos ve\u00edculos. Ou n\u00e3o lhes interessa tocar nesses assuntos.<\/p>\n<p><em>*Alex Pegna Hercog \u00e9 comunicador social e integrante do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<br \/>** A s\u00e9rie Vozes Silenciadas \u2013 Quem quer calar a luta dos sem-terra? \u00e9 produzida pelo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social. Coordena\u00e7\u00e3o: M\u00f4nica Mour\u00e3o. Pesquisa: Alex Pegna Hercog e Eduardo Amorim. Colabora\u00e7\u00e3o: Ol\u00edvia Bandeira e Pedro Vila\u00e7a<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2023\/07\/08\/imprensa-produz-conteudo-para-construir-imagem-negativa-do-mst\/\">Imprensa produz conte\u00fado para construir imagem negativa do MST<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u200b\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A s\u00e9rie Vozes Silenciadas analisa a cobertura de imprensa da CPI do MST. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Por Alex Pegna HercogDo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social Tal como numa pintura, o texto jornal\u00edstico \u00e9 carregado de intencionalidade. Cada cor usada e cada tra\u00e7o constroem uma narrativa. O resultado da tela, portanto, traz a imagem daquilo que quem a criou quer exibir, mas tamb\u00e9m pode revelar suas refer\u00eancias, cultura e interesses. 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