{"id":156,"date":"2023-07-12T17:39:30","date_gmt":"2023-07-12T20:39:30","guid":{"rendered":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=156"},"modified":"2023-07-12T17:39:30","modified_gmt":"2023-07-12T20:39:30","slug":"deputados-suspeitos-de-crimes-dominam-pauta-sobre-cpi-do-mst","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=156","title":{"rendered":"Deputados suspeitos de crimes dominam pauta sobre CPI do MST"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Eduardo Amorim<br \/>Do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) sofre um desvio de fun\u00e7\u00e3o t\u00edpico deste per\u00edodo legislativo marcado pela elei\u00e7\u00e3o de uma quantidade grande de parlamentares suspeitos de crimes e pelo fortalecimento da bancada do chamado agroneg\u00f3cio. Enquanto deputados s\u00e3o indicados para fun\u00e7\u00f5es importantes e conseguem se safar de investiga\u00e7\u00f5es, temas como a compra de arroz org\u00e2nico do MST pela gest\u00e3o municipal de Juiz de Fora (MG) precisam mesmo ser tratados como se fossem um caso de pol\u00edcia? A pauta da pr\u00f3pria CPI e a cobertura feita pela m\u00eddia dos movimentos sociais do campo parecem estar sofrendo com os tempos ainda sombrios.<\/p>\n<p>Em um levantamento parcial das mat\u00e9rias que est\u00e3o sendo encontradas por pesquisa desenvolvida pelo Intervozes sobre a cobertura relacionada ao Movimento durante e no per\u00edodo anterior \u00e0 CPI do MST, o deputado Ricardo Salles (PL), relator da CPI, aparece como fonte mais ouvida e o Tenente-Coronel Zucco (Republicanos), que preside a Comiss\u00e3o, aparece em segundo lugar. O ex-ministro do governo Bolsonaro foi fonte em 20 reportagens, enquanto Zucco aparece 14 vezes nas 127 primeiras publica\u00e7\u00f5es pesquisadas na <em>Folha de S. Paulo<\/em>, <em>Estad\u00e3o<\/em>, <em>O Globo<\/em>, <em>Ag\u00eancia Brasil<\/em>, <em>Jornal Nacional<\/em>, <em>Portal R7<\/em> e <em>AgroMais<\/em>. O MST, motivo da CPI, aparece apenas 12 vezes, como terceira fonte mais ouvida.<\/p>\n<p>Ricardo Salles est\u00e1 envolvido em uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es suspeitas, tendo j\u00e1 sido <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/05\/20\/contrabando-e-r-14-milhoes-suspeitos-o-que-salles-precisara-explicar-a-justica\">alvo de busca e apreens\u00e3o pela Pol\u00edcia Federal<\/a>. Na mais conhecida, sofre acusa\u00e7\u00e3o de crimes como advocacia administrativa, criar dificuldades para a fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental e atrapalhar investiga\u00e7\u00e3o de infra\u00e7\u00e3o penal que envolva organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Ele teria atuado para tentar liberar madeira apreendida na divisa do Par\u00e1 com o Amazonas no fim de 2020 que foi avaliada em R$ 129 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A apura\u00e7\u00e3o pedida pela Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica (PGR) surgiu a partir de uma investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (Opera\u00e7\u00e3o Handroanthus) que levou \u00e0 apreens\u00e3o de 226 mil metros c\u00fabicos de madeira extra\u00eddos ilegalmente por organiza\u00e7\u00f5es criminosas, segundo o Superior Tribunal Federal. Salles e o presidente da CPI t\u00eam papel relevante para decidir quem ser\u00e1 ouvido nas sess\u00f5es, mas a pr\u00f3pria pauta dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m parece n\u00e3o conseguir se livrar do v\u00edcio em repercutir pol\u00eamicas, bate-bocas e viol\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam grande relev\u00e2ncia na vida da popula\u00e7\u00e3o (e servem apenas para quem est\u00e1 tentando se expor para uma pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o). Um exemplo foi a repercuss\u00e3o da expuls\u00e3o de uma militante de esquerda do plen\u00e1rio da CPI na sess\u00e3o de 31 de maio.<\/p>\n<p>O presidente da CPI do MST, Tenente-Coronel Zucco, \u00e9 investigado por suspeita de ter patrocinado e incentivado atos antidemocr\u00e1ticos no Rio Grande do Sul e em Bras\u00edlia contra o resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2022. O pedido de investiga\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no seu estado, mas o Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o entendeu que, como Zucco tem foro privilegiado, a an\u00e1lise deveria ser feita pelo Superior Tribunal Federal.<\/p>\n<p>A pauta pol\u00edtica domina a cobertura relacionada ao MST, o que acaba gerando reportagens em que s\u00e3o ouvidos \u201cdois lados\u201d, representados pela oposi\u00e7\u00e3o e o governo Lula. Mas, nas primeiras semanas de acompanhamento das mat\u00e9rias, o Intervozes e os leitores atentos da m\u00eddia j\u00e1 viram posicionamentos diversos emitidos por representantes do executivo federal que, se n\u00e3o chegam a ser de oposi\u00e7\u00e3o ao movimento social, certamente n\u00e3o representam em nenhum momento o discurso dos sem-terra. Como j\u00e1 mencionamos em <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/27\/imprensa-criminaliza-mst-enquanto-silencia-sobre-verdadeiros-invasores\">outro texto desta s\u00e9rie<\/a>, o presidente Lula chegou a dizer que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio \u201cfazer barulho\u201d para se conseguir a reforma agr\u00e1ria, num discurso que evidentemente visa a desmobilizar o ,movimento.<\/p>\n<p>Nas 12 apari\u00e7\u00f5es em que o MST \u00e9 citado, n\u00e3o se trata de um representante oficial, e sim uma soma de diversas pessoas e documentos que representam o movimento de forma gen\u00e9rica. Nessa categoria, est\u00e3o somadas cita\u00e7\u00f5es do site, de notas e de integrantes qualificados como l\u00edderes ou integrantes do movimento social, inclusive quando est\u00e1 especificado o estado do pa\u00eds que elas representam. Ou seja, parece existir um problema de di\u00e1logo entre a imprensa e o movimento, porque os representantes oficiais aparecem pouco. Jo\u00e3o Paulo Rodrigues e Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dille s\u00e3o os que mais foram encontrados na fase inicial da pesquisa, mas com apenas tr\u00eas e duas apari\u00e7\u00f5es, respectivamente.<\/p>\n<p>Entre os parlamentares governistas, tem destaque a deputada federal S\u00e2mia Bonfim. Explicitamente a favor do MST, ela inclusive organizou <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/07\/07\/ato-reune-movimentos-artistas-e-liderancas-em-apoio-ao-mst-e-a-deputadas-ameacadas-de-cassacao\">ato no Armaz\u00e9m do Campo em S\u00e3o Paulo, no \u00faltimo s\u00e1bado (8)<\/a>, de solidariedade \u00e0s parlamentares que sofrem processo de cassa\u00e7\u00e3o por terem se posicionado contra o Marco Temporal e em defesa do MST. O n\u00famero de apari\u00e7\u00f5es da psolista, apesar de inflado por sofrer esse injusto processo, empata com o do presidente da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA), Pedro Lampion. Ambos foram fonte de 10 reportagens cada.<\/p>\n<p>Apesar de S\u00e2mia Bonfim ter um n\u00famero relativamente grande de apari\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante ressaltar que muitas delas s\u00e3o causadas por abusos cometidos justamente pelo relator ou pelo presidente da CPI do MST, que s\u00e3o as fontes mais ouvidas nas reportagens que v\u00eam sendo analisadas. Reportagem de <em>O Globo<\/em>, no \u00faltimo 6 de junho, cita que \u201c<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/noticia\/2023\/05\/cpi-do-mst-mpf-ve-violencia-politica-de-genero-contra-samia-bomfim-e-aciona-pgr.ghtml\">o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal acionou a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica (PGR)<\/a>\u00a0por avaliar que S\u00e2mia Bomfim foi v\u00edtima de viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero durante sess\u00f5es da\u00a0<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/tudo-sobre\/assunto\/cpi-do-mst\/\">CPI do MST<\/a>. A den\u00fancia cita o epis\u00f3dio em que a parlamentar teve o microfone desligado durante sua fala pelo presidente da comiss\u00e3o, o tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS)\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e2mia Bomfim tamb\u00e9m fez quest\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/22\/parlamentares-vao-ao-supremo-contra-membros-de-cpi-do-mst-que-invadiram-moradias-de-assentados\">denunciar os parlamentares que invadiram resid\u00eancias de assentados da Frente Nacional de Luta (FNL), na zona oeste de S\u00e3o Paulo<\/a>, entre eles, Salles e Zucco. Poucas, no entanto, s\u00e3o as reportagens que aprofundam quest\u00f5es complexas e contextualizam a reforma agr\u00e1ria a partir d<em>e fontes ligadas ao movimento ou mesmo de parlamentares que se posicionam favoravelmente a ele. Na reportagem do \u00faltimo dia 7 de junho em que a <\/em>Folha de S. Paulo afirma no t\u00edtulo \u201cParlamentares cobram STF e CPI contra lei usada por Tarcisio para beneficiar fazendeiros\u201d, faltou, por exemplo, identificar a legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lei Estadual n\u00ba 17.557, de 2022, \u00e9 tema de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2023\/06\/sao-paulo-nao-pode-ter-uma-reforma-agraria-as-avessas.shtml\">artigo do deputado estadual Eduardo Suplicy publicado no dia 29 de junho, na <em>Folha de S. Paulo<\/em><\/a>, com o t\u00edtulo \u201cS\u00e3o Paulo n\u00e3o pode ter uma reforma agr\u00e1ria \u00e0s avessas\u201d. De forma did\u00e1tica, o texto mostra que a legisla\u00e7\u00e3o aprovada ainda no per\u00edodo do governo Rodrigo Garcia cria graves problemas no campo e questiona a legalidade de a\u00e7\u00f5es que v\u00eam sendo implementadas no per\u00edodo recente pelo governo de S\u00e3o Paulo baseadas nessa lei. \u201cA cada dia, o tema ganha maior relev\u00e2ncia e alcan\u00e7a o Supremo Tribunal Federal e a CPI sobre o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que a popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo entenda como chegamos at\u00e9 aqui\u201d, diz trecho bastante simb\u00f3lico do artigo do deputado\u00a0Suplicy.<\/p>\n<p>O levantamento sobre a cobertura da m\u00eddia sobre o MST neste per\u00edodo t\u00e3o complexo em que ocorre mais uma CPI para investigar o movimento social na C\u00e2mara dos Deputados est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando. Mas, al\u00e9m do grande espa\u00e7o que vem sendo dado na m\u00eddia a pol\u00edticos eleitos que s\u00e3o acusados de crimes ambientais ou mesmo contra a democracia e t\u00eam uma forte rela\u00e7\u00e3o com o agroneg\u00f3cio, tamb\u00e9m j\u00e1 parece poss\u00edvel afirmar que poucas vezes os jornalistas da grande m\u00eddia t\u00eam conseguido transpor o debate pouco pedag\u00f3gico da disputa pelos holofotes no Congresso Nacional.<\/p>\n<p>No tema da legisla\u00e7\u00e3o que pode abrir uma brecha para grilagem em S\u00e3o Paulo, o artigo do deputado estadual Eduardo Suplicy \u00e9 o mais informativo. A internet, a velocidade da vida das pessoas e o mercado cada vez mais sofrido do jornalismo tornam dif\u00edcil o investimento em produ\u00e7\u00f5es de qualidade. Mas n\u00e3o seria o grande diferencial de um ve\u00edculo de m\u00eddia investir em algo que v\u00e1 al\u00e9m dos coment\u00e1rios que qualquer um pode fazer nas redes sociais sobre a queda de bra\u00e7o quase que di\u00e1ria entre governo e oposi\u00e7\u00e3o? Afinal, neste primeiro m\u00eas de acompanhamento pelo Intervozes, uma li\u00e7\u00e3o que estamos aprendendo \u00e9 que falta espa\u00e7o nos sete ve\u00edculos analisados para o debate efetivamente sobre os sem-terra, enquanto sobram manchetes sobre a disputa eleitoral antecipada.<\/p>\n<p>*<em>Eduardo Amorim \u00e9 jornalista, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e associado ao Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>** <em>A s\u00e9rie Vozes Silenciadas \u2013 Quem quer calar a luta dos sem-terra? \u00e9 produzida pelo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social. Coordena\u00e7\u00e3o: M\u00f4nica Mour\u00e3o. Pesquisa: Alex Pegna Hercog e Eduardo Amorim. Colabora\u00e7\u00e3o: Ol\u00edvia Bandeira e Pedro Vila\u00e7a<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2023\/07\/12\/deputados-suspeitos-de-crimes-dominam-pauta-sobre-cpi-do-mst\/\">Deputados suspeitos de crimes dominam pauta sobre CPI do MST<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u200b\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eduardo AmorimDo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social A Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) sofre um desvio de fun\u00e7\u00e3o t\u00edpico deste per\u00edodo legislativo marcado pela elei\u00e7\u00e3o de uma quantidade grande de parlamentares suspeitos de crimes e pelo fortalecimento da bancada do chamado agroneg\u00f3cio. 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