{"id":158,"date":"2023-07-20T14:32:23","date_gmt":"2023-07-20T17:32:23","guid":{"rendered":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=158"},"modified":"2023-07-20T14:32:23","modified_gmt":"2023-07-20T17:32:23","slug":"agronegocio-tem-midia-propria-para-produzir-desinformacao-e-conteudo-panfletario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tocommst.mst.org.br\/?p=158","title":{"rendered":"Agroneg\u00f3cio tem m\u00eddia pr\u00f3pria para produzir desinforma\u00e7\u00e3o e conte\u00fado panflet\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>foto:ASP Inc<\/p>\n<p><em>Por M\u00f4nica Mour\u00e3o<\/em><br \/><em>Do Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/em><\/p>\n<p>Entre os ve\u00edculos analisados no monitoramento \u201c<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/06\/19\/vozes-silenciadas-quem-quer-calar-a-luta-dos-sem-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vozes silenciadas \u2013 quem quer calar a voz dos sem-terra<\/a>?\u201d, foi inclu\u00eddo o portal do Agromais, canal de TV do Grupo Bandeirantes de\u00a0 Comunica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de textos sobre agricultura, pecu\u00e1ria, pesca, aquicultura, meio ambiente, economia e pol\u00edtica, o site apresenta um banner com informa\u00e7\u00f5es sobre a cota\u00e7\u00e3o de produtos como milho, trigo, soja, cacau e boi.<\/p>\n<p>Apesar de utilizar a linguagem e o visual de um site jornal\u00edstico que se pretende informativo, o ve\u00edculo tem posicionamento evidentemente a favor do agroneg\u00f3cio, ao eleger este como \u00fanico modelo de produ\u00e7\u00e3o e desconsiderar as alternativas constru\u00eddas, entre outros, pelos movimentos de luta pela reforma agr\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 de se espantar, assim, que a cobertura sobre a CPI do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) seja amplamente contr\u00e1ria ao movimento.<\/p>\n<p>Entre 13 e 31 de maio de 2023, o Agromais publicou 11 mat\u00e9rias que citam o MST. Sete delas usam termos negativos para se referir ao movimento e suas causas, todos eles varia\u00e7\u00f5es da palavra \u201cinvas\u00e3o\u201d. Nas 11 mat\u00e9rias, apenas uma fonte favor\u00e1vel ao MST foi ouvida, no dia 25 de maio de 2023. O pr\u00f3prio t\u00edtulo (\u201cFedearroz repudia falas de Padre Jo\u00e3o sobre produ\u00e7\u00e3o de arroz no pa\u00eds\u201d) j\u00e1 d\u00e1 a entender qual o ponto de vista: o da Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es de Arrozeiros do Estado do Rio Grande do Sul (Fedearroz).<\/p>\n<p>A imagem que acompanha a mat\u00e9ria \u00e9 uma arte dividida ao meio, sendo a primeira metade com a logomarca da Fedearroz abaixo do nome \u201cComunicado\u201d com uma imagem de megafone sobre uma fotografia de planta\u00e7\u00e3o. A outra metade traz um retrato do deputado federal Padre Jo\u00e3o (PT-MG), que disse durante a vota\u00e7\u00e3o de requerimentos da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) do MST: \u201cQuero informar que no almo\u00e7o de hoje meu card\u00e1pio foi arroz, e o agro n\u00e3o produz arroz\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a mat\u00e9ria, \u201ca declara\u00e7\u00e3o gerou revolta entre representantes e produtores de arroz. Ap\u00f3s a repercuss\u00e3o, Padre Jo\u00e3o se retratou nas redes sociais\u201d. Esta retrata\u00e7\u00e3o e a resposta da Fedearroz s\u00e3o o foco da mat\u00e9ria. O deputado justificou que \u201cquem produz comida para nosso povo \u00e9 o pequeno agricultor, a agricultura familiar, os assentamentos da reforma agr\u00e1ria. 70% ou mais dos alimentos que chegam \u00e0 nossa mesa \u00e9 produzido por eles\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa resposta, a mat\u00e9ria reproduz, na \u00edntegra, o comunicado da Fedearroz sobre o caso, que \u00e9 encerrada com uma defesa do papel do agroneg\u00f3cio para o crescimento do pa\u00eds e a mitiga\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais: \u201c[\u2026] os produtores rurais ga\u00fachos elevam o pa\u00eds ao patamar de maior produtor de arroz do mundo fora do continente asi\u00e1tico, sendo gerador de riquezas, empregos, tributos ao Estado, contribuindo, inclusive, para que o pa\u00eds possa prover programas assistenciais \u00e0s camadas mais vulner\u00e1veis econ\u00f4mica e socialmente da popula\u00e7\u00e3o brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Embora silencie sobre o fato de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/20\/maior-producao-de-arroz-organico-da-america-latina-conheca-a-experiencia-agroecologica-do-mst\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o MST ser o maior produtor de arroz org\u00e2nico da Am\u00e9rica Latina, segundo o Instituto Riograndense do Arroz<\/a>, fica evidente que quem produziu a mat\u00e9ria teve acesso a essa informa\u00e7\u00e3o, amplamente divulgada, mas preferiu omiti-la. Falar sobre a premiada produ\u00e7\u00e3o de arroz do MST seria tamb\u00e9m revelar outra l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o, baseada nos princ\u00edpios da agroecologia, com respeito aos biomas e gest\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ainda no m\u00eas de maio, \u00e9 importante atentar para a publica\u00e7\u00e3o do dia 17, data em que foi instalada a CPI. A mat\u00e9ria que anuncia a instala\u00e7\u00e3o foca nos parlamentares que a formam. Sem citar fontes nem aprofundar a tem\u00e1tica, ao afirmar que \u201cos parlamentares v\u00e3o investigar os meios de financiamento das invas\u00f5es de terras\u201d, a mat\u00e9ria j\u00e1 apresenta um veredicto \u00a0contr\u00e1rio\u00a0ao MST.<\/p>\n<p>Esse tom \u00e9 disfar\u00e7ado no t\u00edtulo (\u201cCom Zucco na presid\u00eancia e Ricardo Salles na relatoria, CPI do MST \u00e9 instalada na C\u00e2mara\u201d) e no subt\u00edtulo (\u201cA Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito investigar\u00e1 as a\u00e7\u00f5es do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra\u201d), que soam bastante objetivos e flertam com a \u201cimparcialidade\u201d, que sabemos ser inexistente.<\/p>\n<p>No m\u00eas de junho, o Agromais publicou 12 mat\u00e9rias que mencionam o MST. Dessas, oito usam termos negativos para se referir ao movimento, como \u201cinvas\u00e3o\u201d e suas varia\u00e7\u00f5es e ainda \u201cdepreda\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio p\u00fablico e privado\u201d; \u201ccrimes correlatos que possam ter sido cometidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)\u201d; \u201co l\u00edder do MST amea\u00e7ou dizendo que as invas\u00f5es n\u00e3o seriam apenas no m\u00eas de abril\u201d; e \u201cos invasores praticam o desmatamento\u201d.<\/p>\n<p>Das 12 mat\u00e9rias publicadas em junho, apenas duas apresentam fontes favor\u00e1veis ao MST, sendo uma em cada. Por outro lado, s\u00e3o justamente duas publica\u00e7\u00f5es feitas para desinformar. Com o t\u00edtulo \u201cRicardo Salles apresenta v\u00eddeo com acusa\u00e7\u00f5es de extors\u00e3o contra l\u00edder do MST\u201d, em 14 de junho, o portal afirma que a CPI \u201cfez um balan\u00e7o da visita \u00e0 regi\u00e3o do Pontal do Paranapanema, \u00e1rea de conflitos rurais em S\u00e3o Paulo\u201d e que \u201co deputado Ricardo Salles (PL-SP), apresentou um v\u00eddeo com acusa\u00e7\u00f5es de extors\u00e3o contra Jos\u00e9 Rainha J\u00fanior, l\u00edder do MST\u201d.<\/p>\n<p>O texto n\u00e3o questiona a <a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2023\/06\/01\/fazenda-onde-salles-humilhou-camponesas-esta-em-penhora-e-tem-historico-de-desmatamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dilig\u00eancia da CPI, que intimidou militantes da Frente Nacional de Lutas (FNL), em ocupa\u00e7\u00e3o numa fazenda cuja posse \u00e9 alvo de disputa judicial e que sofreu a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas ambientais do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo por desmatamento<\/a>. Muito menos explica que Jos\u00e9 Rainha J\u00fanior n\u00e3o faz parte do MST desde 2007.<\/p>\n<p>Assim, o tom geral \u00e9 de reafirma\u00e7\u00e3o das mentiras produzidas por Ricardo Salles, embora haja espa\u00e7o para Gleisi Hoffmann (PT-PR), que \u201cquestionou o fato dos acampados n\u00e3o serem ouvidos. \u2018Quero deixar aqui registrado que esta \u00e9 uma Comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito, portanto ela \u00e9 de averigua\u00e7\u00e3o. Quando fazemos um inqu\u00e9rito, ouvimos todas as partes\u2019, disse\u201d. A deputada afirmou tamb\u00e9m que \u201cesse relat\u00f3rio est\u00e1 pronto para criminalizar o movimento e a reforma agr\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>A segunda publica\u00e7\u00e3o de junho que ouve uma fonte a favor do MST, feita no dia 12, tamb\u00e9m traz desinforma\u00e7\u00e3o. O t\u00edtulo \u2013 \u201cCPI do MST volta a se reunir nesta ter\u00e7a-feira (13)\u201d \u2013 e o primeiro par\u00e1grafo t\u00eam informa\u00e7\u00f5es sobre a CPI, de forma aparentemente objetiva. Mas o par\u00e1grafo seguinte trata de um caso de invas\u00e3o a terras da empresa de celulose Suzano, em A\u00e7ail\u00e2ndia (MA), associada de forma mentirosa a uma a\u00e7\u00e3o do MST.<\/p>\n<p>No entanto, nem mesmo a nota da Suzano citada na mat\u00e9ria atribui a invas\u00e3o ao MST, e sim a \u201cinvasores profissionais\u201d, sem nenhuma refer\u00eancia aos sem-terra. Em vez de afirmar esse fato, a mat\u00e9ria preferiu atribuir o desmentido ao MST, destacando que \u201ca assessoria do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) informou que n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por essa invas\u00e3o\u201d. A op\u00e7\u00e3o por colocar a informa\u00e7\u00e3o correta como uma defesa do movimento busca criar a ideia de que essa \u00e9 apenas a posi\u00e7\u00e3o dele em resposta a um ato violento cometido, e n\u00e3o um fato que o ve\u00edculo poderia ter confirmado.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do Agromais, de defesa do agroneg\u00f3cio e criminaliza\u00e7\u00e3o do MST, independente dos fatos, aponta para o car\u00e1ter panflet\u00e1rio do ve\u00edculo, apesar da linguagem jornal\u00edstica. Como afirmou o marxista italiano Antonio Gramsci, em 1916, \u201co jornal burgu\u00eas (qualquer que seja sua cor) \u00e9 um instrumento de luta movido por interesses. [\u2026] Para o jornal burgu\u00eas os oper\u00e1rios nunca t\u00eam raz\u00e3o. H\u00e1 manifesta\u00e7\u00e3o? Os manifestantes, apenas porque s\u00e3o oper\u00e1rios, s\u00e3o sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores\u201d.<\/p>\n<p>Conforme a <a href=\"https:\/\/brazil.mom-gmr.org\/br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisa \u201cQuem controla a m\u00eddia no Brasil?\u201d<\/a>, s\u00e3o evidentes as rela\u00e7\u00f5es entre o Grupo Bandeirantes e o agroneg\u00f3cio. Propriet\u00e1ria do Grupo, a fam\u00edlia Saad tamb\u00e9m \u00e9 dona de terras e usa seus ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o para fazer a disputa ideol\u00f3gica em defesa do agro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Agromais, possui o canal de TV a cabo Terraviva e, na Band News, o Jornal Terraviva reapresenta not\u00edcias sobre o agroneg\u00f3cio produzidas pelo canal especializado. N\u00e3o custa lembrar tamb\u00e9m que, em 1989, a fam\u00edlia teve uma parte de suas terras desapropriada para a reforma agr\u00e1ria. A conflu\u00eancia de interesses n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Bandeirantes: <a href=\"https:\/\/brazil.mom-gmr.org\/br\/destaques\/interessesempresariais\/?limit=all&amp;cHash=a62b95889bf88be4e947729c51032812\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outros grupos de comunica\u00e7\u00e3o que concentram a maior parte da audi\u00eancia do pa\u00eds tamb\u00e9m investem em terras e produzem conte\u00fados sobre agricultura e pecu\u00e1ria<\/a>. O resultado \u00e9 mais agro, menos informa\u00e7\u00e3o e menos diversidade, tanto de vozes quanto de modelos de produ\u00e7\u00e3o representados pela m\u00eddia.<\/p>\n<p><em>* M\u00f4nica Mour\u00e3o \u00e9 jornalista, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e associada ao Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2023\/07\/20\/agronegocio-tem-midia-propria-para-produzir-desinformacao-e-conteudo-panfletario\/\">Agroneg\u00f3cio tem m\u00eddia pr\u00f3pria para produzir desinforma\u00e7\u00e3o e conte\u00fado panflet\u00e1rio<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u200b\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>foto:ASP Inc Por M\u00f4nica Mour\u00e3oDo Intervozes \u2013 Coletivo Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o Social Entre os ve\u00edculos analisados no monitoramento \u201cVozes silenciadas \u2013 quem quer calar a voz dos sem-terra?\u201d, foi inclu\u00eddo o portal do Agromais, canal de TV do Grupo Bandeirantes de\u00a0 Comunica\u00e7\u00e3o. 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